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21 de novembro de 2012

A vida e suas escolhas


Muitas vezes rememoro passagens que parecem muito remotas como se fossem histórias antigas contadas por alguém, lidas em algum livro, vistas em um filme. Com surpresa, eu percebo que são lembranças do que eu vivi das minhas muitas vidas.

Lembro-me das cavalgadas ao lado do meu avô. Lembro-me da dedicação tentando tocar violoncelo (há tanto tempo que não toco... ). Lembro-me das aulas de dança, das aventuras subindo montanhas, ou da paixão que eu tinha pelos números, muitas coisas que não faço mais e muitas que provavelmente não voltarei a fazer.

Estas lembranças me levam a pensar em todas as possibilidades que eu tive na vida e nas muitas vidas que eu poderia ter tido. Foram estas possibilidades de aprender, de testar, de escolher e de amar cada momento que me conduziram até onde estou, com meu marido, com minha filha, com minhas novas escolhas e com minha infinidade de novas possibilidades.

Amo a liberdade de escolha e as possibilidades que a vida me deu.  Amo meu passado, meu presente e meu futuro. Amo os erros dos quais me arrependi e que me ensinaram que há sempre uma possibilidade de mudança, de fazer novas escolhas. Amo a trajetória que escolhi e que se renova a cada novo passo. E percebo a dádiva que é escolher, pois a minha vida é alimentada diariamente por minhas escolhas.

Por D.


31 de outubro de 2012

Toda história merece ser contada



O que eu sempre mais quis na vida foi contar histórias. Mas dezenas de pequenos medos idiotas vêm me travando nesses tempos e me desviando do meu desejo. O medo adolescente de engordar (existe essa ideia ridícula que associa qualquer nível de sobrepeso, principalmente o feminino, à infelicidade insanável...), o medo jovem de envelhecer (pro Tártaro essa outra ideia estúpida que acredita que envelhecer seja algum tipo de crime ou doença!), o medo adulto de não arranjar trabalho (ter o que comer continua sendo, legitimamente, uma preocupação fundamental de qualquer pessoa, o problema é quando as coisas são de um jeito que essa preocupação leva a excluir ou pelo menos a sufocar todas as demais), o medo escolar de não aprender tudo o que eu devo (e quantas vezes decorei um monte de coisas pra no meio delas esquecer: mas o que era mesmo que eu estava tentando aprender?), o medo exibicionista de desagradar, o medo carrasco de fracassar, o medo triste de não amadurecer e, talvez acima de todos, o medo traiçoeiro, feminino e humano de ficar só. 

Pois bem, desde criança eu sei que preciso contar histórias, mas venho atrasando essa tarefa desde então. Já usei boas e más desculpas (dias muito frios, noites muito quentes, deveres mais urgentes), mas a verdade é que a única coisa que me trava são os medos. E esses medos todos, quando se juntam, se transformam em algo assustador e aparentemente invencível: a incapacidade de contar a história da minha própria alma.

Contar a história da própria alma é fundamental, mas você só é capaz de fazer isso quando percebe que está com os demais. E que é com eles, por eles e para eles que você pode – e deve – contar essa história.

Para mim, a minha vocação de contar histórias só se destrava na medida em que eu consigo contar a história da minha alma, isto é, na medida em que eu sei viver a minha vocação primeira ao amor – na medida em que eu sou capaz de realizar, a cada dia, o milagre de estar com os demais.

Acabando de superar a fase dos vinte e poucos anos, esses tempos me peguei me achando velha e muito chata pra começar qualquer coisa que valesse a pena (era um momento de estupidez rotunda e por isso sequer me lembrei de que já tenho começadas algumas várias coisas muitíssimo empolgantes e que valem tremendamente a pena...). Tive, por um instante, vontade de fazer seis coisas (não necessariamente compatíveis e não necessariamente nessa ordem): 1) chutar o balde e dar o cano em todos os compromissos da semana; 3) comer uma panela de brigadeiro inteira sem dividir com ninguém; 3) raspar o cabelo e ir viver nas montanhas sozinha; 4) ler todos os livros do mundo; 5) passar o resto da vida morando cada ano num país diferente; 6) me trancar no quarto pelo resto do dia. No final tomei vergonha na cara e saí pra encontrar uma amiga, que era o que a minha agenda dizia que eu tinha de fazer, afinal. E depois de um dia normal bem vivido entre as pessoas, me lembrei: Não existe história que não valha a pena – porque não existe pessoa que não valha a pena. Toda história merece ser contada. Inclusive a de hoje.

Por Hannah