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20 de novembro de 2013

Infinito Particular


- De onde será que tiraram essa ideia de infinito?
O vô interrompeu o silêncio para lançar o desafio. E confesso que nunca havia pensado nisso fora do plano pessoal e da matemática do colégio…

Lembrei da tia Bel contando do Lucas, seu netinho de 2 anos, que tinha estado num rio pela primeira vez.
- E ai, gostou do rio?
- Não tinha jacaré!
- E a água fazia “chuá chuá”?
- Não, a água só passava...

Acho que ao longo da vida desafiamos os infinitos com os quais nos deparamos, sempre descobrindo que há mais além...
Pensando assim, faz sentido isso que dizem que a gente nunca acaba...

Mari

9 de outubro de 2013

De mudança


Há algumas semanas  eu arrumava as minhas coisas pra me mudar de cidade. Foi uma coisa meio repentina, uma oportunidade que surgiu de repente e que pedia uma resposta quase imediata. Eu não tinha muito tempo pra preparar tudo e o meu volume de bagagens deveria ser, digamos assim, modesto (afinal, não estava exatamente disposta a pagar pelo preço exorbitante do excesso de bagagem). Pra resolver esse "drama", incorporei a máxima  das mudanças: "vou levar comigo só essencial".
Obviamente não durou muito tempo. Tive várias crises do tipo "meu Deus, quero levar tudo!" ou de "tanto faz, não quero mais me mudar mesmo". Mas no fim, quando tudo estava finalmente pronto, eu percebi que o que nos é realmente essencial não é algo que levamos nas malas. 

Adélia

25 de setembro de 2013

Do Desespero e da Paz


- Mariana?

Abri os olhos e me deparei com a T. sorridente.


- Você está bem?


Não estava tanto, dava voltas em torno de problemas que me pareciam monstruosos.
Ela continuou antes que eu respondesse qualquer coisa:


- Deve estar tudo bem, sua vida é fácil, né? Não parece nada com a minha. Sabe como é a minha, né?


Lembrei-me do nosso último encontro há quatro anos.
Aconteceu como nesse dia: eu estava sentada de olhos fechados e ela me chamou.
Só que naquela data, quando abri os olhos, me deparei com a T. em lágrimas.
T. é uma parente distante que vejo muito pouco e naquela altura não a reconheci e nem lembrava seu nome (aliás, fiquei surpresa de que ela tivesse me reconhecido).
Ela começou a compartilhar as dificuldades da vida.Tantos problemas e esses sim, monstruosos, que ela já beirava a loucura.


...


Quatro anos depois, não me lembrava mais dos detalhes, mas só a recordação da face de desespero dela me fez ver que os meus problemas eram mesmo irrelevantes.

T. continuava a falar:


-Sabe, esses dias estive doente, fiz duas cirurgias - dizia apontando para as cicatrizes na barriga - Queria morrer, pedi para Deus me levar. Não queria mais viver nesse mundo que só tem desgraça. Deus não quis me levar, acabei ficando. Estou feliz agora. Arrumei um emprego. Amanhã vamos para a praia para passar o fim de semana. Estou falando muito alto, né? Me desculpe.  A gente sempre se cruza por acaso, né? Tenho que ir, vá lá em casa me fazer uma visita…


Recuperado o silêncio, já distraída dos meus problemas, voltei a meditar de como a luta dos outros nos ajuda na nossa luta cotidiana...

Por Mari

18 de setembro de 2013

A crônica




Hoje quero compartilhar com vocês uma crônica. A crônica que todo professor acaba vivenciando na escola, diariamente, no seu cotidiano com os seus alunos.

Vamos lá... Sou estudante do quarto ano de Letras, da Universidade Federal do Paraná, e aprendi o que era crônica pela primeira vez aos 11 anos de idade, quando ainda estava na quinta série. Nunca dei muita importância para esta forma tão “corriqueira”, “cotidiana” e “pouco poética” de narrar.  Descobri em sala de aula, como professora, que nunca aprendi e internalizei tão bem este gênero. Estranhamente nós somos pagos para ensinar, contudo nós sempre somos os que mais aprendemos nessa empreitada docente. 

Meus alunos tem exatamente 11 anos, idade com a qual aprendi o que era crônica. Ensinei todos os conceitos perfeitamente. Fizemos ficha do assunto. Lemos milhões de crônicas em sala. Diferenciamos de outros gêneros. Tudo nos conformes. Alguns alunos se empenhavam mais, outros mais ou menos e outros simplesmente desprezavam a disciplina. Após todos os blas blas blas sobre crônica, pedi que eles produzissem uma, aplicando tudo o que eles aprenderam e viram nas leituras.

Todos escreveram a tal da crônica exigida pela professora. Muitos falaram de zumbis, planetas X, galáxias ainda não descobertas e extraterrestres; muitos ainda fizeram um relato pessoal, como uma espécie de diário, porém teve uma redação, sem parágrafo, com milhões de erros ortográficos, do aluno mais indisciplinado da turma, que seguiu os padrões do gênero e escreveu a tal da crônica.

A história era de um menino que viu seu pai aparecer com outra família repentinamente. De um menino que não sabia bem o que faria nos seus próximos dias já que estava sem o pai. Diálogos com a irmã narrando o horror e a tristeza cotidiana. O pai morando longe e o drama diário desse personagem que não sabia muito bem o que faria. Para muitos isso poderia ser um conto, mas para esse aluno era de fato uma crônica, já que, bem, estava contando o cotidiano de uma criança, uma criança que representava ele mesmo na vida real. A crônica, que para mim não passava de muitos conceitos fechados que serviam como uma forma de caracterizar este gênero, fez parte da vida do meu aluno, a ponto dele ter encontrado nela uma forma de mimetizar a sua vida.

Na verdade, essa tarefa que atribuí a eles me fez aprender que ser professor te faz aprender com todos os alunos, inclusive os indisciplinados e que não aparentam ser muito promissores no futuro.  Aprendi que nem sempre o melhor da sala, apesar de ter decorado ou estudado assiduamente os conteúdos, é o que compreendeu melhor. Aprendi ainda que a delícia de ser professor está justamente na surpresa que os pequenos sempre pregam na gente.

Ser professor é entrar todo dia em sala com uma aula pronta e muitas vezes perceber que na verdade a sua aula estava muito superficial para a profundidade dos seus alunos. É encontrar o amor nos olhinhos deles atentos em você. É aprender diariamente a simplicidade e a espontaneidade da vida, que a gente sempre acaba perdendo um pouco quando nos tornamos adultos. A Crônica nunca foi tão real como depois dessa redação.


Por Ana Karla Canarinos

4 de setembro de 2013

Para você, quem é o centro do mundo?


Certa vez estava numa consulta médica desconfortavelmente (como suponho que costumam estar as pessoas tímidas) e numa tentativa de ser simpático o médico me lançou o desafio:


- Para você, quem é o centro do mundo?

Jamais tinha pensado no assunto fora das discussões do tema nas aulas de história. Fiquei um tempo em silêncio, pensando, sem conseguir chegar a uma conclusão.
Diante da minha reação, ele começou a me explicar que eu era o centro do mundo e por isso, ele e todo o resto das pessoas existiam para estar a meu serviço.


Aquela frase soou como a maior mentira que eu já tinha ouvido na vida.
Há muito tinha aprendido que o mundo existia muito bem sem a minha presença nele por séculos…

...

Um dia depois de várias reviravoltas na vida, percebi que aquela frase do médico poderia ter um fundo de verdade: morando sozinha não havia ponto de fuga, acabei por me tornar o centro (mesmo que do meu próprio mundinho) e o desafio de servir a mim mesma passou a ser uma questão de sobrevivência.


...


No fim, acho que o importante é que o amor, por si próprio e pelos outros, seja uma força maior do que as circunstâncias da vida a que estamos sujeitos...

Por Sofia

13 de fevereiro de 2013

Desafios do Sim

Algumas vezes é fácil responder sim, como quando nos perguntam se queremos trocar o trabalho por um dia na praia; quando fazemos algo por alguém que temos certeza que nos elogiará; quando nos oferecem chocolate (sabendo que gostamos muito de ganhar chocolate); quando sentimos uma sensação de que seremos felizes para sempre.

Outras vezes não é tão fácil dizer que sim, como quando nos oferecem algo para comer de que não gostamos; quando temos que limpar a sujeira que não fizemos; quando temos que acordar a cada dia para trabalhar num lugar que detestamos; quando deixamos nossa opinião de lado e aceitamos a do outro.


Na vida o nosso sim é requisitado em diversas circunstâncias entre alegrias e pesares.
Muitas vezes, no enrolar do cotidiano, nos esquecemos de que o amor brota do equilíbrio entre o “sim” para si e o “sim” para os outros.

Acho importante não perder de vista o fato de que não nos sentiremos felizes para sempre depois de dizer um sim. Isso porque o equilíbrio do “sim” é um desafio constante que requer de nós mais que um pronunciamento momentâneo. Requer uma decisão diária de viver o amor. Dessa decisão encontramos força para dizer que sim mesmo às circunstâncias em que nos sentimos momentaneamente engolindo um remédio muito ruim, mas que nos cura de uma doença muito pior (esse mal de se achar o centro do mundo).

Por Alice

23 de janeiro de 2013

Que descolorirá


http://www.flickr.com/photos/soniamadruga/5199210061/in/photostream/



Na história que meu pai nos contava quando éramos crianças, eu era a flor mais velha de pétalas coloridas que mudavam de cor toda vez que aprendia algo novo.

 Um dia desses, estava pensando sobre a experiência das mudanças e me dei conta que ser “forasteiro” nos tempos de adaptação é como voltar a ser criança. A cada passo uma nova descoberta, um novo desafio.
O aprendizado de uma forma geral, não é algo fácil.  Exige querer aprender, exige esforço, mas muda as cores do mundo ou, pelo menos, as cores do olhar que temos do mundo.

 Agora, tenho para mim, que mais desafiador que ser forasteiro, é encontrar a lição que o cotidiano, na sua simplicidade extrema e repetitiva, tem a nos oferecer.
Buscar o singelo contraste das cores de cada dia, aparentemente iguais, é o desafio que garante a vivacidade da aquarela que compomos com a nossa vida...

Por Mari