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22 de maio de 2013

Padam


À minha mãe

Eu não sei o que é o amor.
Em certos dias – feriado de domingo, 0h47, frio e chuva fraca –, até desconfio ter um travo por dentro, me corroendo em acordes menores, como se me fosse reservado um painel sem cor.
Já tentei. Por duas vezes, tentei amar.
Comecei me apaixonando. Escrevi cartas. Namorei. Fiz juras de amor. Ofereci provas. Fui monogâmico à revelia. Construí edifícios, cada qual de quatro anos. Na metade do prédio eu já sabia que não tinha mais amor. [E minha carga de desejos é terrível, sufocante.]
Meus amores são semiáridos. Tenho sede, mas represento um deserto, areia escassa e truculenta. Digo do amor como um mecânico ao telefone. Mecânico.
Moro sozinho e na mesma casa há quase dez anos.
Morar sozinho é um exercício de amor ao próprio território, é não se desesperar no dia em que solidão pisa no peito, nem se entregar às mulheres carinhosas que pedem quartos. É viver numa pulsação de noite, silêncio e retorno.
Neste Dia das Mães, inúmeras manifestações de afeto nas redes sociais. Os almoços protocolares. Os amigos que viajam aos seus parentes. Não me encontro em nenhuma ideologia afetiva e, para piorar, sempre fui um ator ruim.
A minha mãe mora aqui pertinho. Tenho certeza de que ela não esperava ter um filho tão impróprio ao amor. Eu pouco abraço, de vez em quando uso a ironia para demonstrar o quanto ainda preciso de seu abrigo, sei que ela tem medo de perguntar de meus rumos amorosos, falo pouco.
Sempre amei em disritmia. De tempos em tempos, resplandeço em Piaf, mas logo estou no mesmo subterrâneo.
É insuficiente, sempre é.
Minha mãe, onde foi que errei?
 Como poderei ser inteiro se me falta coração?

ouça a música "Padam, Padam..." de Edith Piaf em:


Por Daniel Zanella

6 de fevereiro de 2013

Chocolate meio-amargo


Acabo de ler esse conto incrível do David Foster Wallace (DFW, daqui pra frente) chamado “A pessoa deprimida”. O DFW é um autor americano que escreve insanamente bem e que eu, pra minha vergonha e tristeza (como, até agora, consegui viver sem ele?!), conheço há tão pouco tempo que nem sou capaz de pronunciar mais nada a respeito do sujeito a não ser esse juízo bobo e encantado: o cara escreve bem pacas.

Pois esse conto fala de uma mulher depressiva, tão obcecada com seu próprio estado depressivo que a maior parte da sensação de sufocamento que o conto te provoca (e ele é genialmente construído numa rede de comentários e notas de rodapé num jargão psiquiátrico conscientemente irônico e exaustivo) provém antes do autocentramento sufocante, onipresente e pesadelístico dessa personagem (cuja sensação você, leitor, melhor experimenta do que racionalmente compreende) do que de uma descrição objetiva ou razoável da doença de que ela sofre. A genialidade está, me parece, em abolir qualquer chance de julgamento objetivo: no final ficamos mesmo sem saber se a pessoa deprimida em questão merece nossa ilimitada compaixão e tolerância inesgotável ou se na verdade o melhor que podemos fazer por ela é dar-lhe, isso sim, um tremendo chacoalhão e mandá-la parar de ser tão irritantemente infantil e autocentrada e depois mandá-la praquele lugar, quem sabe.  O genial é que essa impossibilidade de julgar que nos toma enquanto leitores é justamente o que caracteriza (ou uma das coisas que caracterizam) o estado de alguém que sofre de depressão. A incapacidade ou imensa dificuldade de tomar decisões, ao lado de um autocentramento que paralisa e esgota, é um traço frequente no quadro clínico da pessoa deprimida. Isso por um lado. E, por outro, a impossibilidade (ou pelo menos dificuldade) de julgar, junto com algum nível de excesso de preocupação com o próprio estado psicológico, parece ser uma característica mais ou menos generalizada da vida adulta urbana na pós-modernidade da qual poucos de nós conseguem escapar (e agora vou ali esfregar pimenta na língua pra ver se paro de falar bobagem enrolada).

Eu não tenho depressão e também não tenho interesse em ter, obrigada – às vezes desconfio que exista essa espécie de mercado sutil (ou nem tão sutil) pronto pra te empurrar algum distúrbio psicológico com o qual você pode etiquetar algum aspecto mais espinhoso e idiossincrático da sua vida e assim supostamente amenizá-lo ou resolvê-lo – não tenho nenhum interesse em ter... mas muitas vezes é exatamente o mesmo tipo de indecisão e autocentramento paralisante que me atormenta e, ao mesmo tempo, faz eu me sentir especialmente única, até eu enfim me dar conta de que essa indecisão e esse autocentramento não são nada idiossincraticamente meus e nem misticamente me escolheram pralgum papel ou missão pra qual sou insubstituível, mas são sim, a indecisão e o autocentramento, coisas, tchan-tchan-tchan-tchan, meramente humanas. O que não nos torna menos especiais e idiossincráticos, a nós, que desse dado generalizado padecemos (do mesmo modo que compartilhar outros dados comuns ao gênero humano, tais como ter fome, frio e sono, não nos faz menos especiais, únicos, insubstituíveis, cada um de nós. Porque eu sinto fome igual a todos vocês, mas às vezes a minha fome só pode ser saciada por uma combinação exata e quase irreproduzível de brigadeiro, bolacha maisena e geleia de damasco. Aberrantemente único. Brincadeira[1].)

(E não parei de falar bobagem enrolada... tsc.)      

O que o DFW acaba de me fazer pensar com esse conto genial dele é que pra cada vez em que eu me sinto linda e insuportavelmente única por, de um jeito supostamente muito estranho, só conseguir aplacar alguma angústia existencial de origem variada com um pedaço de chocolate meio-amargo eu poderia, ao invés disso, ter perdido meio minuto considerando que alguém, nalgum outro recanto, sente talvez uma angústia mais afiada que a minha e pensa em uma forma ainda mais inédita e estranha de aplacá-la. E com isso eu entenderia um pouco mais do mundo.  

Nota: DFW sofria de uma depressão profunda e crônica desde a adolescência e que foi a causa da sua morte aos 46 anos de idade. A experiência pessoal da doença a meu ver só tornam o conto “A pessoa deprimida” ainda mais pungente, complexo e interessante. Este meu texto não tem, portanto, qualquer intenção de desqualificar as pessoas que sofrem com a doença em questão e muito menos questionar a existência médica e real deste e de outros distúrbios psiquiátricos. No mais, leiam o conto dele (além de tudo o que dele quiserem e puderem encontrar...).

Por Hannah




[1] Ou melhor, quase verdade. Na real a combinação que sacia a minha fome exclusiva inclui ainda um pedaço de chocolate meio-amargo em estado de semi-liquefação. 

DFW