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29 de abril de 2015

Ser Maria


Meu padrinho uma vez me disse que não me deixaria casar antes de eu me formar na faculdade, porque teoricamente isso significa que eu não trabalharia fora, e eu sou inteligente demais pra ficar em casa e "ser maria".

Que fatídico futuro: observar comerem da comida que preparei com gosto, vestirem a roupa que dobrei sorrindo ("estão crescendo tão rápido, daqui a pouco já não cabe mais!"). Perfumar a casa e transformá-la em lar (tão limpinho!). Estar presente e dar atenção aos filhos, dar carinho e arrumar a bagunça depois que eles dormirem. Receber meu José cansado do trabalho e ser seu descanso. 

O que será que tem de tão pavoroso nisso?

Que AUDÁCIA ser Maria! Quanta dignidade pôs ela, com seu toque santo e feminino, nas coisas da casa! Quem me dera ser perfeita e alcançar o que ela alcançou sendo mãe e esposa, que honra amar, servir, e multiplicar. Quanto poder tem a mulher, de definir o tom de uma família, de formar uma criança, de ser o bom humor de um homem. Em que mundo maravilhoso moraríamos se todas as mulheres fossem Marias?!

Sinto muito, padrinho, mas trabalhando ou não, eu pretendo ser Maria.

BM

26 de fevereiro de 2014

Veranil e sinestésico




Saí do carro depois da chuva e o céu estava azul. Olhei pra cima e pela ausência de nuvens aquele azul aveludado e úmido parecia estar a um palmo do meu rosto. Quis lamber o céu, mas ele já me lambia e refrescava. E nessa ilusão de ótica veranil e sinestésica eu me senti submersa no mundo, igual a quando mergulho e fico parada sentindo a água me sustentando e abraçando de todos os lados. e então eu me senti em casa.


Menina das cartas

30 de outubro de 2013

Casa de Brinquedos




"Eu estava brincando na Casa dos Brinquedos..."

Com certeza ao ler esta afirmação muitos pensarão que é uma criança que está falando, pois é muito grande a dificuldade que os adultos têm para brincar no seu cotidiano de responsabilidades. O que felizmente as mães têm a oportunidade de aproveitar. 

A maternidade não é de maneira nenhuma uma brincadeira, já que a responsabilidade se materializa ao ensinar uma criança a tornar-se um bom adulto. Chego a dizer que é uma das maiores responsabilidades que se pode assumir perante o mundo.

Mas, certamente também, é uma grande oportunidade para brincar, não em uma casa de brinquedos miniatura, porque com uma filha de 1 ano e 7 meses em casa descobri que a minha própria casa virou realmente uma casa de brinquedos e que eu acabo sendo uma criança grande, e mais desajeitada que ela.

Eu rolo no chão, engatinho atrás dela, dançamos, brincamos de bola e apesar de já não ter a mesma agilidade eu tento ensiná-la, na sua pouca idade, a desenvolver sua coordenação para poder aproveitar toda a agilidade que a infância lhe dá, que um dia já me deu, mas que eu consigo, como mãe, diariamente rememorar.

Portanto a frase: Eu estava brincando na Casa dos Brinquedos... Não é de uma criança, mas da mãe que pelo menos em algumas horas do dia, volta a ser assim...

Por Daniela

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3 de abril de 2013

L'Amour




A primeira vez que eu pisei na Índia tinha 25 anos e voltaria para o Brasil depois de oito meses. Chegando, meu primeiro pensamento foi: “aonde eu vim me meter dessa vez”. Pânico, confusão, medo e muito, muito calor.

Para os que não sabem, sendo bem genérica e grosseira, a Índia é outro planeta no Planeta Terra, algo que defino como países impossíveis. Morei no sul daquele país, numa cidade longe de ser cosmopolita como Mumbai ou Nova Délhi.  Era realmente o fim do mundo.

Passados cinco anos desde essa aventura, passei a entender a célebre frase de Nietzsche, que diz que é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela brilhante. No meu caso, a estrela brilhante se chamava Amor. Eu encontrei o Amor em um lugar sem esperança e quando não estava procurando. Não tinha tempo de pensar nisso, estava muito ocupada sobrevivendo. E o Amor, como todas as coisas de Deus, não é óbvio.

Essa estrela brilhante transformou oito meses em cinco anos. Minha mala só com roupas de verão teve de ser rearranjada para enfrentar temperaturas europeias do mês de novembro. Não voltaria mais ao Brasil. Minha nova morada seria na Bélgica, país que até então só conhecia pelo seu tamanhinho e sua cerveja, mas que jamais poderia imaginar que lá moraria sem ao menos ter visitado. Pois bem, o Amor. Virei uma “Love refugee” como meus amigos gostavam de falar. Troquei um caminho certo por um desconhecido. Mas, de novo, eu gosto não só de países impossíveis, como coisas impossíveis. Hoje, do “alto” dos meus 31 anos, me pergunto de onde saiu tanta coragem. 

Aí, olho para as minhas costas e vejo uma cicatriz que diz “a sabedoria não está na razão, mas no Amor”. Foi do Amor que veio essa coragem.

Hoje, estou ansiosíssima, esperando que onze longos dias passem rápido. Porque, dessa vez, eu vou receber meu refugiado, que vem ficar ao meu lado, deste lado do mundo, lugar que eu chamo de minha casa. 


Por Letícia