29 de abril de 2015

Ser Maria


Meu padrinho uma vez me disse que não me deixaria casar antes de eu me formar na faculdade, porque teoricamente isso significa que eu não trabalharia fora, e eu sou inteligente demais pra ficar em casa e "ser maria".

Que fatídico futuro: observar comerem da comida que preparei com gosto, vestirem a roupa que dobrei sorrindo ("estão crescendo tão rápido, daqui a pouco já não cabe mais!"). Perfumar a casa e transformá-la em lar (tão limpinho!). Estar presente e dar atenção aos filhos, dar carinho e arrumar a bagunça depois que eles dormirem. Receber meu José cansado do trabalho e ser seu descanso. 

O que será que tem de tão pavoroso nisso?

Que AUDÁCIA ser Maria! Quanta dignidade pôs ela, com seu toque santo e feminino, nas coisas da casa! Quem me dera ser perfeita e alcançar o que ela alcançou sendo mãe e esposa, que honra amar, servir, e multiplicar. Quanto poder tem a mulher, de definir o tom de uma família, de formar uma criança, de ser o bom humor de um homem. Em que mundo maravilhoso moraríamos se todas as mulheres fossem Marias?!

Sinto muito, padrinho, mas trabalhando ou não, eu pretendo ser Maria.

BM

17 de dezembro de 2014

Alimento




Olhou com ojeriza para a comida, era gourmet, mas cheirava a morte, assim como todo o resto em volta.
A vida que outrora lhe parecia fácil e alegre tomou ares de farsa.
Palavras lançadas ao vento.
Pequenas decepções cotidianas.
Perdas.
Traições.
Desânimo.
Fraqueza.
Perdera o tempero...

Abriu o livro e leu a dedicatória:
“Ser teu pão, ser tua comida e todo o amor que houver nessa vida.”

Um sentimento de gratidão a inundou.
Sentiu-se forte para recusar a valsa dos mortos-vivos que a circundava e renovou seu desejo de se fazer, também, alimento.

Sophia


9 de abril de 2014

Bodas de Diamante



Na manhã do dia 15 de março de 1954 (uma segunda feira), Marcus, apaixonado e enamorado, disse sim a Yvonne que, apaixonada e enamorada, disse sim ao Marcus e assim o meu nome e o nome dos meus irmãos puderam ser inscritos no livro da vida.
Obrigado!
Há muito o que comemorar.
Quanta alegria e felicidade se sobressaem em meio às dificuldades, contrariedades e tristezas que a vida lhes trouxe nestes 60 anos, forjando um amor pleno.
O amor de 1954 chegou a 2014 cheio de razão, selado e amadurecido pela fé, esperança e sobretudo pela caridade.
Amor cheio de razão, pois amar é mais do que paixão, é decisão.
Decisão livre de entregar o único e verdadeiro bem que possuímos: a liberdade e assim tornar-se prisioneiro do outro.
Esse é um amor que se realiza no eterno.

Luiz

2 de abril de 2014

A tragédia do outro também é a nossa tragédia




Durante o passar dos dias vivenciamos diversos acontecimentos, alguns que são mera rotina e outros que nos suscitam maior reflexão e até mesmo empatia em relação ao mundo dos outros. Hoje foi um dia desses. Ao ler sobre o caso da mãe de família, baleada em uma troca de tiros em uma comunidade carioca, jogada no porta-malas de uma viatura policial e depois arrastada por alguns metros, acabei por me colocar no lugar das pessoas que vivem naquela comunidade, e dos seus familiares em particular.

Li a notícia e assisti ao depoimento da filha adolescente da vítima. Mesmo estando distante dos fatos, socialmente e espacialmente, confesso que a imagem extrema da violência diária que aquelas pessoas sofrem me instigou certa tristeza e uma revolta interior. Entretanto, o que mais me tocou foi o depoimento da filha, que continua a luta da vida mesmo com a dor da perda, denunciando o modo pelo qual aquela gente sofre na pele, negra por sinal, a marginalização e o estigma da criminalidade.

O depoimento é claro, "eles pensaram que ela era bandida", "acharam que ela estava levando café para os traficantes". Juízo prévio realizado em minutos, ou talvez até segundos. A condenação já estava realizada, mesmo sem o julgamento. E mais, é assustador ter a certeza de que o tratamento dispensado a esta mulher jamais ocorreria em um bairro nobre da mesma cidade. Tragédia extrema na qual a dor da família pela perda foi tratada com muita hostilidade.

Continuo insistindo o quanto é triste e ao mesmo tempo revoltante assistir o depoimento da filha, ainda em luto pela perda da mãe. Não há como não compartilhar esses sentimentos. Com simplicidade e grande força, a garota apresenta um testemunho revelador de todos os abusos das autoridades estatais, triste denúncia de que aqueles que moram no morro não tem vez. Serão sempre julgados, pelo Estado, pela mídia e por todos. Infelizmente, essa é a dura realidade daqueles que se encontram do outro lado, e na qual nós jamais poderemos compreender plenamente.
 
Só tenho a dizer que lamento profundamente, mesmo sabendo da incompletude do meu sentimento de empatia por essas pessoas, que choraram a perda de uma mulher, mãe de família, que certamente fará muita falta para aqueles que a estimam. A empatia é justamente isso, nos colocarmos no lugar do outro, sentirmos parte da dor e da tragédia do outro, de modo a nos tornarmos um pouco mais humanos, apesar de toda a estupidez que existe. Talvez a humanidade necessite desse exercício diário.


Flávia Regina

26 de março de 2014

Tão longe, tão perto




Quando eu deixei a minha cidade, a minha família, os meus amigos, a minha casa e os meus cachorros para cair nessa imensidão que é São Paulo e começar a faculdade dos meus sonhos, eu não fazia ideia do que realmente significava isso. 
Não imaginava que ia ser tão doce e tão amargo. Não imaginava que ia me sentir tão distante e tão próxima.
Estar longe dói com frequência. Não fazer parte do dia-a-dia de quem você ama é uma ferida constantemente aberta.
Mas ao mesmo tempo carrego todas elas, seus rostos, seus jeitos, seus cheiros, seus sorrisos, carrego-as no meu coração de um jeito que eu não fazia quando estava fisicamente perto. A distância muda o amor. Mas não na intensidade, somente na sua forma. Aprendi a amar de longe, e isso alargou meu coração. Alargou tanto que já começo a amar tudo isso que me é novo na vida. E multiplicam-se os rostos que eu carrego comigo. 
Me vejo alegre. Alegre porque fui capaz de escolher e minha escolha me transformou. Hoje vivo com mais peso. Com mais sentido, mais direção e mais magnitude (veja só, sou quase um vetor!). 
Mas a alegria maior está em saber que a mudança não termina. Viver é mudar, e crescer, e transformar, e aprender, e lutar. E em meio a tudo isso a gente ama. Ama os outros, ama as lutas, ama os dias. E o que era no início amargo se torna, gradualmente, cheio de doçura.


Adélia 

19 de março de 2014

Turquia




O dia em que decidi ir para a Turquia foi o dia em que já tinha me afogado em sofrimento. O meu namoro de quase seis anos havia se esvaído e aquele em que tanto confiava assumiu nunca ter verdadeiramente me amado. Eu tinha vivido seis anos pra ele. Seis anos em que não sabia quem eu era. E a minha viagem era a minha chance de tentar me descobrir. Cheguei num país diferente para encontrar uma amiga há tempos não vista na esperança de viver algo diferente. A Turquia se revelou pra mim uma cura. A convivência com pessoas que vivem com princípios de hospitalidade e respeito para com qualquer cliente, visitante ou passante me ensinou que devemos respeitar o outro. A cada chá oferecido gratuitamente para que eu me sentisse mais acolhida na loja, casa ou restaurante eu sabia que algo mudava em mim também. Em um momento, por exemplo, uma garota que sentou ao meu lado no ônibus de viagem e que sequer conseguia se comunicar comigo me comprou brownies. Simplesmente para que eu pudesse estar bem naquela viagem. Sem interesse algum. E essa foi apenas uma das histórias emocionantes.  Passei meu aniversário em Éfeso, na Turquia, entre ruínas de uma cidade que foi grega, romana e otomana. Longe de tudo e de todos, inclusive da minha amiga turca que ficou em Istambul. Estava em Éfeso e depois em Pamukkale e ainda na Capadócia. Sozinha. Mas em cada tour conheci gente do mundo todo. Fiz amigos, dei risadas e, embora sozinha em minhas descobertas, em nenhum momento me senti solitária. Pessoas diferentes me enriqueciam de mim mesma. Então voltei para Istambul para reencontrar minha amiga depois da viagem pelo interior da Turquia e pelo meu interior, e fui surpreendida por um bolo de aniversário, parabéns e presentes. Chorei de emoção vendo que existe amor sem precedentes no mundo. Existe amor sem limites. Um amor que transcende preconceitos, religião, costumes e crenças. E ele está dentro de mim. Precisei viajar para encontrar a mim mesma e ao meu amor. E foi na Turquia que me conheci. Um país que não é cheio de camelos, que não é radical com o islamismo e onde as mulheres têm voz e podem sim andar sozinhas sem medo. Fui extremamente bem tratada por todos que conheci. Aprendi a me sentir especial e hoje me respeito e me amo. Sozinha talvez, nunca solitária. Tenho dentro de mim as lembranças. Tenho dentro de mim tudo que não sabia que eu tinha. Tenho uma vida que vale a pena ser vivida. E que sempre valerá, não importa o que aconteça.

C. S.

12 de março de 2014

Amoramigo




Não é o dos poemas mais românticos, do jantar a luz de velas ou da ansiedade pelo primeiro encontro. Talvez, um dia (quem sabe?), até seja, mas o de hoje não é. O amor amigo é o do “porque não nascemos filhos/as da mesma mãe?” ou do “porque não nos conhecemos antes?”. É o clichê, desde “a família que nos permitiram escolher” até o “pede pra minha mãe pra eu dormir na sua casa?”. É o amor primeiro, é o que todos deveriam ter por direito e é o que nos ergue quando falta chão pra pisar. Esse amor é aquele que aparece quando você olha lá pra cima e pergunta se não tem mais nada de ruim pra acontecer com você, ou quando você está convicto de que já não existem meios de se ter “fé na vida, fé no homem, fé no que vier”.

Há um tempo (um ano, nem muito e nem pouco, mas o suficiente para que eu processasse todas as informações), resolvi embarcar, me enfiar de cabeça, mais especificamente falando, num sonho escondido: viajar para outro país, sozinha, e morar lá por um tempo. Eu tinha, como era de se esperar, todos os tipos de medo: de me perder, não entender a língua, ir mal nos estudos ou morrer de saudades da minha casa. Mas o medo maior, aquele que tirava o sono e molhava o travesseiro, era o de perder o lugar que eu tinha na vida das pessoas, na vida dos meus amigos. Querendo ou não, a gente sabe que família está ali, família é quase sempre fixa. Mas amigo... ah! Amigo a gente rega, aduba, assiste crescer todo dia.

Mas, e se eles se acostumarem com você longe? E se for verdade que “quem tanto se ausenta um dia deixa de fazer falta”? E se VOCÊ se acostumar sem eles? E se na hora de voltar já não existir seu espacinho na vida de cada um?


E aí vem a vida como um belo “há-há-há” bem no seu nariz. Afinal de contas, você mal sabe o que vem pela frente. Você não faz ideia de que todo o colorido da sua viagem virá deles, os amigos. E agora em dose dupla. Agora você vai conhecer quem estará contigo em uma das maiores e melhores experiências da sua vida, aprender a sentir saudade pra sempre e a confiar que amigo não tem regra, não expira. É engraçado como a gente passa a perceber e aceitar que na vida há quem apareça para ficar e há quem está só de passagem, e nenhum deles é mais ou menos importante. De algum jeito maluco e incompreensível, as pecinhas desse quebra cabeça vivo vão se encaixando. Quem tinha que ficar o fez, e você nunca vai saber como agradecer por isso. Quem precisou ir foi, e os motivos talvez não precisem ser entendidos. Quem quis aparecer? Esses vieram também, oras! Seus presentes de boas-vindas. E os que você precisou deixar, não porque quis, mas porque precisou... esses andam com você a cada sorriso que você dá e cada vez que seus olhos piscam, seu coração bate ou sua mente viaja. Eles hoje são parte de quem você é, de quem você se fez, de quem você aprendeu a ser.

Tha

26 de fevereiro de 2014

Veranil e sinestésico




Saí do carro depois da chuva e o céu estava azul. Olhei pra cima e pela ausência de nuvens aquele azul aveludado e úmido parecia estar a um palmo do meu rosto. Quis lamber o céu, mas ele já me lambia e refrescava. E nessa ilusão de ótica veranil e sinestésica eu me senti submersa no mundo, igual a quando mergulho e fico parada sentindo a água me sustentando e abraçando de todos os lados. e então eu me senti em casa.


Menina das cartas

9 de janeiro de 2014

Dick and Jane


A Jane veio me cumprimentar, me perguntava onde estaria o Dick quando me lembrei que ele tinha morrido. Já não me lembrava há quanto tempo, mas não a tinha visto desde então. Há dois anos que não vinha para o Alabama.
Desatei a chorar pela notícia recebida há meses (que não me fez chorar na ocasião).
Conheci a Jane e o Dick logo que meus pais chegaram no Alabama cinco anos atrás. Ficava admirada com a disposição deles de irem à missa todos os dias às 6e20 da manhã (apesar de aposentados ainda trabalhavam ajudando os imigrantes mexicanos). Lembro-me quando o Dick se apresentou para nós, disse que Dick e Jane eram os nomes mais óbvios para casais nas histórias americanas. Todos os dias, o Dick nos cumprimentava com um sorriso, esperando que déssemos boas noticias sobre a nossa adaptação.

Hoje quando vi a Jane sozinha desatei a chorar não só pela saudade que ela deve sentir do Dick, mas porque senti o mundo muito mais triste com a sua ausência. Não tinha me dado conta, mas acho que esperava encontrar o sorriso esperançoso dele logo na saída.

Mari

1 de janeiro de 2014

Pôr do Sol


Hoje resolvi caminhar lá fora, no final da tarde. Diferente das outras vezes, caminhei no sentido contrário, de propósito, para que, na volta, pudesse assistir ao maravilhoso pôr do sol que esta cidade em que vivo nos proporciona.
Queria ter uma cadeira comigo e mudá-la de lugar, e viver em um planeta pequeno, que pudesse ter 43 pores de sol num dia na Terra.
E hoje o pôr  de sol me fez chorar. Não era o mais lindo de todos, as nuvens encobriam parte do sol. Mas era lindo mesmo assim. Era como se ele enchesse o meu coração de uma certeza: a de que as maiores riquezas que temos; o pôr do sol, o amanhecer, uma criança a brincar, um sorriso amigo de quem se ama, um amigo que reencontramos, são presentes que nenhum dinheiro no mundo pode pagar, não tem preço. E as lágrimas que derramamos quando nos deparamos com elas são aquelas que nos trazem de volta aquilo que somos.

Eve

19 de dezembro de 2013

"E aí? Tranquilo? Qué uma ajudinha aí?”




Quando ouvi isto, confesso que a frase “embelezou” minha tarde que se iniciava. Um homem estava junto ao carro com problemas na via, foi abordado com um caloroso: “E aí? Tranquilo? Qué uma ajudinha aí?”.

Percebi que algumas pessoas convivem mais com esta frase que outras, vai de acordo com o ambiente em que convive, mas a beleza da “ajudinha” é quando ela é gratuita, a ajuda pelo simples prazer de ajudar, e ajudar é sim um prazer.

A lei, constituição, deveres e direitos, trazem ordem à sociedade, mas é tão bom saber que alguém vem me auxiliar sem que eu precise assinar um contrato de direitos e deveres... Isto dá um tom de que fazemos parte não de uma grande empresa mundial, mas de uma família mundial, somos humanos, gente, pessoas, e pessoas não vivem somente de deveres e direitos, mas de amizade e companheirismo também. E, além disso, acredito que “ajudinhas” são questão de justiça, devo também oferecê-la a outros, pois a vida me enche de “vai uma ajudinha aí?” Alguém poderá dizer que a vida não deu tréguas, mas que ela lutou duramente por tudo o que teve... Aí eu pergunto: “Será mesmo?”. É só levá-la a voltar no tempo ou a olhar melhor à sua volta, sair um pouco da esfera em torno ao próprio umbigo, e perceber que a vida é cheia de “ajudinha aí”, além disso, se não for por fazermos parte da mesma família humana, onde fazer algo pelo outro é dever natural, ou virtude adquirida, podemos e devemos ajudar gratuitamente os outros por questão de justiça, pra devolver à vida todas as vezes em que, através das pessoas, ela nos disse: “E aí? Tranquilo? Qué uma ajudinha aí?”


Marcia


11 de dezembro de 2013

E se o tempo passa de qualquer forma...




Hoje faz 3 meses que coloquei minha vida dentro de meia dúzia de sacos plásticos a vácuo e fiz tudo caber dentro de dois volumes de 32kg. Faz 3 meses que deixei a 8300km minha casa, meu amor, família, amigos, cães, conforto, roupa lavada, sopa pronta no fogão e ainda  transformei um curso que já era longo em algo 12 meses maior. Vendo a minha antiga vida passar, sabendo que ela não vai esperar por mim e não há mais caminho de volta.


Que bom.


Que bom que tive a coragem que precisava, na hora que precisei. Que faço isso com o apoio da minha família, amor e amigos. E tenho essa chance que nem todos têm. Nunca mais serei a mesma e fico feliz com isso.


Aprendi que as “pessoas”, principalmente os “momentos com as pessoas”, são mais importantes que as “coisas”. Aprendi que usar por favor, obrigado e com licença não nos deixam mais pobres, muito pelo contrário. Que uma instituição de ensino que se preze precisa, acima de tudo, respeitar seus alunos. E que, de forma mútua, os alunos devem ter o mais imenso respeito pelos professores. Que diversas culturas podem e devem viver em harmonia num mesmo ambiente, sem rótulos, sem segregações e sem a necessidade de abrir mão da sua pátria de origem. Vejo também, com tristeza, que meu país está mais de 50 anos atrasado na cultura do esporte, e isso me entristece de verdade. O país do futebol, e das olimpíadas, não tem hoje o que eles já tem aqui (Canadá) há décadas. Mais uma prova que nossos atletas, técnicos e profissionais do esporte são verdadeiros guerreiros por ainda assim chegarem tão longe.


Vejo meus próximos 9 meses de forma muito promissora e especial. Quero aprender alguma coisa, mesmo que pequena, todo dia. A saudade é grande, mas o tempo está passando muito rápido. E se o tempo passa de qualquer forma, por que não fazer alguma coisa diferente com ele?  


“Uma mente que se abre a uma nova ideia jamais retorna ao seu tamanho original.” (A. Einstein)

Isabel Ziesemer Costa

4 de dezembro de 2013

Família II


Um. Um. Uma. Um. Uma. Uma. Um.
Uma e - eu.
(nóve? sim
do mesmo pai e da mesma- sim.)
A moça que trabalha, os cuidadores
nada de cachorros, e o jardim?
e a mãe que trata de tudo

O balanço, o sofá, a cama
o cafezinho, trabalho, trabalho
- mas primeiro a oração
o sorvete com doce de leite,
a música tocando todo sempre
e a mamãe que cuida de tudo

Os exames, o gás, o jardineiro
os médicos dia sim dia não
a mágica malabarista de tirar daqui e pôr ali
o dinheiro. Mas a generosidade o ano inteiro
/Faz o que deves, está no que fazes. Cumpre o pequeno dever de cada instante. 
Transforma em decassilabo heroico a prosa diaria/
a minha mamãe que cuida de nós

Drummond e M.

27 de novembro de 2013

“... generosidade para seguir Tua voz”





Quando estava na novena para N. Sra. Do Perpétuo Socorro, fiquei impressionada com essa frase. Nunca antes havia me dado conta da importância de sermos generosos para seguirmos Jesus Cristo. Imediatamente pensei em o que deveria fazer para me tornar uma pessoa mais generosa.

Ser generoso é colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar. Mas fazer isso não é tão simples, pois requer que olhemos e prestemos a atenção às carências dos outros, para então começarmos a ajudá-los. Uma das coisas mais importantes para isso é deixarmos de ocupar o centro do universo.

Para sermos generosos, os outros devem ser o foco mais importante da nossa atenção. Mas quem seriam esses outros? Podem ser os nossos familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho. Podem ser os desconhecidos, os motoristas no trânsito, as pessoas que querem conversar na fila do mercado, que sentem fome ou frio, ou ainda as que estão sozinhas nos hospitais, asilos e orfanatos. Nesses casos, a generosidade se manifestaria não apenas na doação de recursos materiais, mas na distribuição de carinho, paciência, gentileza e atenção para todos.

A generosidade, de um ponto de vista mais amplo, também se manifesta com a preocupação com o bem estar de todos os seres vivos – inclusive com os que habitarão o planeta Terra nas próximas gerações. Cuidar de animais abandonados, consumir apenas o necessário para que os recursos energéticos e a água sejam suficientes para todos, preocupar-se com a poluição e o acúmulo de lixo, ou ainda escolher a origem de fabricação dos produtos que consumimos e as marcas que não utilizam mão de obra escrava são exemplos de generosidade.

A generosidade é um dos primeiros passos para conseguirmos seguir a determinação de Cristo para amar a todos os indivíduos, porque segundo o que acreditamos no cristianismo, todos somos irmãos.

Ainda tenho muito o que aprender em relação à generosidade, mas acredito que a humanidade nunca esteve tão generosa. São tantos exemplos de trabalhos voluntários, de pessoas e ONGs que se preocupam com a preservação do meio ambiente e de espécies que estão em perigo de extinção, que nós podemos ser otimistas. Se todos nós nos tornarmos um pouco mais generosos a cada dia que passa, a humanidade será muito mais feliz.

Lorena

20 de novembro de 2013

Infinito Particular


- De onde será que tiraram essa ideia de infinito?
O vô interrompeu o silêncio para lançar o desafio. E confesso que nunca havia pensado nisso fora do plano pessoal e da matemática do colégio…

Lembrei da tia Bel contando do Lucas, seu netinho de 2 anos, que tinha estado num rio pela primeira vez.
- E ai, gostou do rio?
- Não tinha jacaré!
- E a água fazia “chuá chuá”?
- Não, a água só passava...

Acho que ao longo da vida desafiamos os infinitos com os quais nos deparamos, sempre descobrindo que há mais além...
Pensando assim, faz sentido isso que dizem que a gente nunca acaba...

Mari

13 de novembro de 2013

A Rosa


- Ganhei uma rosa! Muito obrigada!
- Você vai voltar de carro para casa?
- Sim.
- É porque senão ela vai murchar...
Fiz aniversário faz algumas semanas. Eu sou do tipo de pessoa que gosta de avisar que esta data está chegando. Qualquer presente que ganhamos é uma lembrança, uma mostra de carinho, mostra que somos importantes para alguém.

Fui atender meu primeiro paciente do dia e ele, meio sem graça, me entregou uma linda rosa (comprada pela sua mãe, pois ele tem apenas 6 anos).
- Onde está o cartão?
Ele perguntou (também tinha sido escrito pela sua mãe, mas estava assinado por ele, com nome e sobrenome). Tinha caído no chão.
- Muito obrigada!
Falei desconcertada, afinal, já tinham passado 2 semanas. Coloquei a linda rosa vermelha em um copo com água, para valorizar e mostrar que eu gostei mesmo.
Ao longo daquela manhã, olhei muitas vezes para a rosa. Fui atender minha última paciente e, como tinha feito com os pacientes anteriores, chamei a sua atenção para a beleza daquela flor.
- Não acho!
Respondeu categoricamente.
- Por quê???
Perguntei espantada.
E ela me respondeu com toda a sinceridade que têm as crianças:
- Porque você não me falou que queria ganhar uma rosa de presente de aniversário? Eu que queria ter comprado para você!
Um desconcerto: será que para ela as flores são únicas?
- Gabi, eu te prometo que te avisarei com antecedência o dia do meu aniversário no ano que vem para você comprar uma rosa bem bonita para mim.
Vou cumprir com o prometido, afinal, gostei tanto de receber a rosa. Lembrei-me do Pequeno Príncipe e me senti cativada pela simplicidade que têm as crianças e pela beleza daquela rosa, que realmente é única.



Julia

6 de novembro de 2013

Como o fermento no pão




Minha mãe tirou o pão do forno com frustração, a massa não tinha crescido o suficiente (ela achava que era por causa do frio).
O cheiro parecia o mesmo, o sabor estava diferente.
Perguntei quanto ia de fermento. Apenas uma colher de café, me respondeu.
E uma quantidade tão mínima poderia fazer tanta diferença?


Às vezes a gente tem impressão, até porque os jornais acabam por enfatizar mais as más notícias do que as boas, de que estamos mergulhados num mundo de corrupção e violência. Pensei que se os atos de amor, vivos como o fermento biológico, mesmo que mínimos, atuassem no mundo como o fermento no pão, haveria motivo de sobra para se viver com esperança.


Mari

30 de outubro de 2013

Casa de Brinquedos




"Eu estava brincando na Casa dos Brinquedos..."

Com certeza ao ler esta afirmação muitos pensarão que é uma criança que está falando, pois é muito grande a dificuldade que os adultos têm para brincar no seu cotidiano de responsabilidades. O que felizmente as mães têm a oportunidade de aproveitar. 

A maternidade não é de maneira nenhuma uma brincadeira, já que a responsabilidade se materializa ao ensinar uma criança a tornar-se um bom adulto. Chego a dizer que é uma das maiores responsabilidades que se pode assumir perante o mundo.

Mas, certamente também, é uma grande oportunidade para brincar, não em uma casa de brinquedos miniatura, porque com uma filha de 1 ano e 7 meses em casa descobri que a minha própria casa virou realmente uma casa de brinquedos e que eu acabo sendo uma criança grande, e mais desajeitada que ela.

Eu rolo no chão, engatinho atrás dela, dançamos, brincamos de bola e apesar de já não ter a mesma agilidade eu tento ensiná-la, na sua pouca idade, a desenvolver sua coordenação para poder aproveitar toda a agilidade que a infância lhe dá, que um dia já me deu, mas que eu consigo, como mãe, diariamente rememorar.

Portanto a frase: Eu estava brincando na Casa dos Brinquedos... Não é de uma criança, mas da mãe que pelo menos em algumas horas do dia, volta a ser assim...

Por Daniela

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23 de outubro de 2013

Minha cunhada se mudou



Quando tinha cinco anos mudei de cidade pela primeira vez. Ano que tem faz dez anos que moro longe da minha família. Lembro do sofrimento que era no começo: um chororô a cada despedida, um chocolate a cada saudade. Dizem que o tempo cura tudo, e eu achava que esses 10 anos tinham me curado. Tinha essa ilusão de desapego, de é assim, fazer o que?, de o mundo é muito grande pra se passar a vida num lugar só mesmo...
Algum tempo atrás minha cunhada se mudou de repente. Eu achando que viver era ganhar horizontes e descobri que tinha raízes. Percebi que apesar de ela nunca sair comigo (ô menina atarefada!) eu queria poder continuar chamando. Quando arrancam uma raiz, o buraco que fica no chão é muito grande e a gente cai. E eu, antes valentona, chorei, regando-me e aprofundando-me ainda mais na terra.
BM

16 de outubro de 2013

A Hierarquia do Amor


Há quem acredite que a maior forma de viver o amor é demonstrar afeto, atenção e cuidado por qualquer estranho que cruze seu caminho.
Muitas vezes, isso é um grande engano.

Devemos sempre nos lembrar que somos responsáveis por quem cativamos.
Penso que só a vivência da responsabilidade nos faz amadurecer a ponto de amar verdadeiramente qualquer estranho que cruze o nosso caminho.

Não podemos nos iludir com uma “ideologia do amor”, o amor só existe na vivência.
E apesar de universal, demanda uma hierarquia.
Se não nos lembramos de incluir na nossa rotina ações para cada pessoa considerando os diferentes níveis de responsabilidade que temos para cada uma, não estamos vivendo o amor…


Alice